O Lançar dos Dados – Capítulo 3 – Inseguro Desemprego

14/06/2012

    Sem segurar a porta para a mulher que vinha atrás, ele saiu do prédio, com aquele velho sentimento de amargura queimando-lhe a carne. Tiago sabia que poderia ter se dado melhor na entrevista, ele sabia. Mas agora tinha certeza de que não seria chamado. Talvez fosse mais fácil recomeçar do zero, pegar um emprego qualquer e investir em si mesmo, conseguir experiência, etc. No fundo, uma voz lhe dizia que ele não conseguiria de volta seu antigo trabalho naquela redação, não depois de tantos anos de esquisitices. Mas ele nunca foi sensato o suficiente para ouvi-la. Na verdade, quando a sensatez o vê andando pela rua, muda de calçada com a cara enfiada num jornal. ‘’Não custa tentar’’ pensava ele. Seus antigos colegas de trabalho o tratavam como louco, e provavelmente estavam certos. Ele tinha que fugir, criar novos relacionamentos, os antigos já estavam com a validade vencida.

    Chegou em seu apartamento, trancou a porta e abriu uma garrafa de uísque. Colocou dois cubos de gelo no copo e sentou-se na poltrona. A herança de seu avô estava acabando, e isso o deixava cada vez mais ansioso por um emprego. O dia foi decepcionante, mas ele tinha que se animar. Caso contrário, ele sabia o que aconteceria…

    – Soube o que houve, cara! – Tiago embriagou seu terno novo com o susto – Triste história. Mas sabe o que eu acho?

    – Eu. Não. Acredito. – disse para Marta, que lia um jornal em cima da mesa – Por que você insiste nisso? O que te impediu de ir embora com os outros? Por que simplesmente não me deixa em paz?

    – Relaxe, homem! Até parece que não está acostumado com minhas surpresas. Deveria estar feliz, afinal, todos abandonaram você, mas eu continuo aqui.

    – Que bonito de sua parte! Quer um abraço? – disse, enquanto tentava, inutilmente, limpar o terno com uma toalha.

    – O mesmo sarcasmo barato de sempre. Você não aprendeu nada… Enfim, voltando ao assunto principal: eu acho que essa entrevista de emprego desastrosa foi uma oportunidade.

    – ‘’Uma oportunidade’’? É isso mesmo o que você tá me dizendo?

    – Nossa! Como seu raciocínio é lento para certas coisas. Sim, uma oportunidade… para se dedicar integralmente ao nosso trabalho.

    – ‘’Nosso’’ trabalho?

    – Meu Deus, você é uma lesma?

    – Você só quer me usar pra vender sua filosofia ridícula aos outros. Sabe o que vão fazer quando souberem? Vão rir. Gargalhar na sua cara. Ou melhor, na minha cara. Talvez seja esse seu objetivo desde o princípio, me ferrar. Faz muito mais sentido.

    – Eu fiquei trancado dentro dessa sua mente bizarra durante 30 anos! Trinta anos! Todo esse tempo processando dados, filtrando o que é ou não relevante. O trabalho lá no subconsciente é duro, a gente não pode perder nada. Eu processei cada detalhe de toda a sua vida, estudei tudo o que você passou e finalmente cheguei numa conclusão que ninguém nunca chegou antes, e agora você quer chamar meu conhecimento de ‘’filosofia ridícula’’? Eu deveria ter o controle desse corpo, não você!

    – Mas não é você que o controla, contente-se com o fato de poder falar comigo. Agora, se não for pedir muito, me deixe em paz por uns instantes.

    Tiago olhou em volta e percebeu que finalmente estava sozinho. Tirou o paletó manchado e ficou olhando para os ponteiros do relógio, percebendo que os segundos iam ficando cada vez mais longos… E mais longos…

    Acordou com a campainha tocando freneticamente, e cada toque parecia uma britadeira trabalhando no asfalto de seu crânio. Massageou as têmporas e foi atender a visita.

    – O senhor precisa assinar aqui, ó! – disse o homem gordo com uniforme dos correios, apontando para uma linha qualquer na prancheta. Tiago continuou em dúvida, pois o dedo do homem ocupava três linhas inteiras. Decidiu arriscar na linha do meio. – Agradecemos pela preferência, senhor.

    Fechou a porta sem tirar os olhos da caixa. Ele sabia o que havia dentro dela, mas fazia tempos que não recebia uma encomenda. Estava com a estranha sensação de que algo não estava no devido lugar, mas ignorou. Abriu a caixa e vislumbrou o aparelho: uma pequena placa de superfície sólida, mas estranhamente macia, com apenas um botão no rodapé. Ligou seu novo celular e ficou encarando-o. Era apenas um telefone, mas Tiago o via como uma ponte para o mundo exterior. Não apenas porque era um ótimo meio de comunicação, mas também parecia que a sociedade via os celulares como reflexos de seus donos, projeções de suas personalidades. Com um celular moderno, de design arrojado, que vinha com mais de cinquenta aplicativos, dos quais Tiago só usaria, no máximo, três durante toda a vida útil do aparelho, ele teria muito mais chances de começar novos relacionamentos e conhecer pessoas (funciona muito bem na teoria). Decidiu que seria esse seu principal objetivo no momento.

    ‘’Farei isso amanhã, agora preciso descansar. ’’ pensou ‘’E rezar para que o remédio faça efeito’’.

    Tomou um comprimido e foi rastejando até a cama. Mesmo com dor, adormeceu no momento em que suas pálpebras engoliram seus olhos, e ele pegou carona no primeiro sonho que encontrou.

    A chuva torrencial não dava trégua, mas ele continuou dirigindo, mesmo sem saber o que estava à sua frente. Na verdade, sequer sabia para onde estava indo. Tentando se acalmar, ligou o rádio.

    ‘’Mötley Crüe… Que surpresa interessante. ’’ pensou, aliviado.

    Mas havia algo de muito errado: não estava reconhecendo o vocalista. Na verdade, era uma voz extremamente desafinada, como se um gato, engasgado com uma andorinha, tivesse aprendido inglês. Olhou para o lado e viu a si mesmo, sentado no banco de carona, cantando ‘’Home Sweet Home’’. Estava vestindo apenas uma toalha e usava um xampu como microfone. Ele parou de repente, olhou para Tiago com uma expressão séria e lançou a embalagem, que acertou em cheio a testa do motorista.

    ‘’Acorde’’ disse ele, delicadamente. Não surtindo efeito, mandou a delicadeza à merda e deu um soco no nariz do sonhador.

    A realidade trombou com força em Tiago, mas ele decidiu não reclamar, pois sabia que perderia a briga. Ficou deitado, imóvel por alguns segundos, olhando para o teto com os olhos arregalados. Quando finalmente as peças se juntaram, ele se levantou e foi à procura de informações. Consultou, orgulhosamente, as horas em seu celular: dezenove e catorze. Lembrou-se que não tinha almoçado naquele dia, nem tomado café. Estava sem fome, mas ficou com medo de que seu estômago saltasse pela boca e procurasse comida por seus próprios meios.

    Tratou de fazer uma bela xícara de café, ao mesmo tempo em que preparava um pacote de macarrão instantâneo que tinha achado no fundo do armário da cozinha.

    – Prepara um pra mim também, a viagem foi horrível – seu subconsciente brotou de uma parede, cansado e com as roupas rasgadas. Tiago não se assustou ao vê-lo, apenas percebeu que ainda sentia dor.

    – O que aconteceu?

    – Você dorme demais, isso é o que aconteceu. Enfim, estava cansado de esperar vossa majestade despertar, então dei um pulo lá no gerador de sonhos e tratei de solucionar o problema. No caminho passei no setor de analgesia e aliviei sua enxaqueca. De nada. – disse, fazendo uma pequena reverência – Acontece que sua mente é uma bagunça, todo mundo por lá ta querendo me pegar. Até parece que não querem mais que eu fale com você.

    – Deveria ouvi-los. – Tiago tomou um grande gole de café – Quer dizer que era você que estava usando meus sonhos como karaokê, então?

    – Eu tentei simplesmente te acordar, mas o lance com os sonhos é um pouco mais complicado… Enfim, não fiz tudo isso pra ficar discutindo minhas habilidades musicais contigo. Vamos ao que realmente interessa…

    – Ao que realmente interessa para você.

    – Eu acho que sei o que preciso para comprovar minha tese!

    – Tá, só me escuta por um instante.Você já parou pra pensar que não pode criar uma teoria sobre a vida de todas as pessoas se baseando somente na minha história? Digamos que você esteja certo sobre essa baboseira toda, mas e se eu for uma anomalia? Se isso só funcionar comigo? Você não pode sair por aí perguntando sobre a vida dos outros para poder comparar com a minha, certo?

    – Eu não… mas você pode.

    – Você quer mesmo que eu saia por aí entrevistando pessoas e perguntando sobre fatos que nem elas lembram?

    – Não, você não vai entrevistar as pessoas. Vai entrevistar gente como eu, que está dentro da cabeça dos outros. O subconsciente guarda tudo, ele não esquece.

    – Como você quer que eu faça isso? ‘’Oi moça, tudo bem? Que calor, né? Nossa, esse verão tá horrível! Mas então, como vão suas personalidades alternativas? A gente poderia tomar um café e deixar elas brincando no parquinho, o que acha?’’

    – Parece promissor, mas não. Eu estava pensando em irmos num lugar mais… apropriado.

    – Um local apropriado?

    – Use a cabeça, Tiago. Para onde gente como você geralmente vai?

    – Entendi. Hmmm… Não, obrigado.

    – Como assim? Você nem pensou no assunto!

    – Sei o bastante sobre sanatórios para não considerar perder meu tempo pensando nisso.

    – Mas por quê? Seria a última peça de que preciso para completar todo o meu trabalho.

    – Não se pode entrar em clínicas entrevistando pacientes. Mesmo que eu pudesse, ainda correria o risco de ser atacado. Ou pior, de ser trancado por lá. – era o que Tiago mais temia. Que fosse parar numa sala vazia, branca, totalmente almofadada e tendo os membros amarrados. Só de pensar nisso já lhe dava vontade de bater com a cabeça na parede de concreto, só para aproveitar a sensação enquanto podia.

    – Eu ainda preciso reconsiderar algumas coisas, mas eu te aviso assim que encontrar um meio de colocá-las em prática. Ei, não se esqueça do macarrão! – apontou para a panela fervente.

    Tiago se lançou em direção ao fogão e desligou-o, a tempo de preservar seu jantar. Virou-se e viu que estava sozinho novamente. Aproveitou sua refeição, considerando a possibilidade de ceder ao pedido de seu fantasma. Tudo bem que a ideia do sanatório era loucura, e a ironia da frase sinalizava isso de forma eficiente, mas agora a situação era outra. Não havia dezenas de personalidades bizarras o incomodando, desta vez era apenas uma. A pior delas, com certeza, mas apenas uma. Se a ajudasse, ou pelo menos tentasse fazer algo a respeito, talvez ela finalmente fosse embora. Era algo que ele decidiu que queria acreditar.

    ‘’Preciso encontrar uma solução melhor que a do sanatório, se eu quiser mesmo fazer isso… ‘’ refletiu, enquanto retirava um pedaço de comida dos dentes. ‘’Mas, pensando melhor, o lance do sanatório até que não é má idéia… ’’. Se ele tivesse dito isso em voz alta, o pedaço de macarrão que estava grudado em sua arcada dentária teria saltado de sua boca, por dois motivos. Primeiro: ele preferiria um destino melhor que ser devorado por Tiago, um idiota que considera esse tipo de plano como algo viável. Segundo: o ato de falar de boca cheia teria expulsado grande parte da massa em sua boca.

    Continuou saboreando lentamente o macarrão. De sobremesa, mastigou seus pensamentos, sem tempero ou cozimento.

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Sobre Kaue

Apenas mais um mané, que curte escrever nas horas vagas em vez de pegar uma enxada e ir capinar.
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