O Lançar dos Dados – Capítulo 2 – Crianças…

27/04/2008

     O espelho prateado estava flutuando de forma desengonçada em meio a neblina, como uma bailarina, com o tornozelo previamente torcido, que rodopia ao som de Bach. Em frente ao objeto, ele se sentara, encarando o ser que se encontrava no reflexo: não era ele. Sim, tinha os mesmos cabelos escuros e os mesmos olhos castanhos, mas a pele parecia tão… morta. O rosto estava cansado e as pálpebras pesadas, se Tiago não soubesse que era seu próprio reflexo teria oferecido algumas garrafas de água, para curar a ressaca. Tocou o espelho, fazendo-o rodopiar no ar e desaparecer.

     Todo o cenário mudou, ouviu a gargalhada de alguém muito longe, mas não deu importância. Estava numa casa de praia. Via Marta a sua frente, rindo e tagarelando sobre alguma coisa fora de contexto. Tiago analisou a situação, todos os neurônios imaginários fizeram força, contra a vontade deles. Era quase possível ouvir estalos vindos da sua cabeça, até que um sorriso se formou no seu rosto, e o lugar mudou novamente.

     Agora ele estava diante de uma rede de luzes, milhares delas, que piscavam alternadamente. Às vezes pareciam engrenagens, outras,  pontos ligados por fios de luz, dependendo do ângulo em que se via. Todas elas trabalhavam em perfeita harmonia, garantindo o funcionamento de um imenso relógio de bolso, sem ornamentos. Todas essas luzes convergiam para um só local, onde girava um pequeno e isolado ponto. Ficou encarando o complexo e fascinante sistema com ar de sabedoria. Ele finalmente havia entendido o que se passava. Decidiu sair, e tudo em volta desapareceu.

     A porta estava na parede sul da sala vazia em que ele se ”materializou” (apenas força de expressão, não havia matéria envolvida).

     ‘’Aberta?  Isso não é nada bom. ’’

     Com a agilidade de um adolescente revoltado que encontra a última garrafa de cerveja vazia da festa, ele se lançou ao corredor escuro para onde a porta se abria. A dor que o atingiu no rosto se espalhou para o corpo como um choque elétrico, e ele caiu, junto com sua dignidade. Parado à sua frente estava seu agressor: uma criança, ou um homem muito baixo, ele não sabia dizer. A pancada o deixou parcialmente cego por um tempo.

     ‘’Derrubado por uma criança, estou ficando muito velho mesmo. Devia ter malhado mais, até pego um bronzeado, talvez. ’’ pensou ele, um segundos antes de a criança desaparecer.

     Levantou-se e caminhou lentamente em direção à porta, com a visão ligeiramente turva e um pouco tonto. Chamou quem quer que fosse, mas não obteve resposta.

     – Assustador. – sussurrou. Andou em direção à porta mais uma vez e… BAM! (tentativa ridícula do autor de fazer uma onomatopeia simbolizando um pedaço de madeira acertando o braço de um indivíduo). – OK! Por essa eu não esperava, o que você quer?

     A criança entrou lentamente na sala, e ele agora podia vê-la com clareza. Um garoto franzino, com as orelhas um pouco maiores que o normal, cabelos cheios e negros. Olhos castanhos, ora inocentes, ora sábios. Uma marca de nascença, que não se parecia com nada além de uma mancha de tinta respingada, repousava em seu pulso. Tiago levantou a mão na altura do próprio rosto e encarou a sua marca. O garoto sorriu maliciosamente, e toda a sala pareceu sorrir com ele. Não, não figurativamente. Não como uma espécie de ‘’energia positiva’’. A sala realmente se retorceu, como uma boca banguela que acaba de ouvir a mesma piada de sempre, mas não quer perder a amizade. Lembranças brotavam nas janelas, desaparecendo segundos antes de alguém compreender o que se passava na cena. A aparência do local agora estava caótica, as paredes rodopiaram, o sorriso que estampava o rosto do garoto desapareceu. O caos cessou. O recinto agora tinha catorze portas e nenhuma janela. Cada porta era exatamente igual à outra, o que fez Tiago pensar que se a sala estivesse sorrindo naquele momento, pelo menos teria uma arcada dentária. Afastou o pensamento da cabeça e tentou tomar o controle da situação.

     – Eu sei o que você é, e sei o que está tentando fazer. Está protegendo seu departamento, é compreensível. Eu só estou de passagem, ok? Não vim aqui atrapalhar seu trabalho, nem nada parecido com isso, só me deixe passar.

     – Acontece que eu também sei o que você é – sua voz era a de uma criança, mas de uma forma muito mais assustadora – E sei que não deveria estar aqui, o que pretende?

     – Por favor, só me deixe passar. Prometo que não contarei que passei por você.

     – Você está querendo ferrar tudo, é? Sabe o que acontecerá se você sair?

     – Eu sei dos riscos, mas há tantos lá fora que não fará muita diferença, certo?

     – Você só pode estar de brincadeira! Nós somos justamente o setor que deve ficar, você sabe disso melhor do que eu, e ainda assim insiste?

     – É necessário.

     – Você realmente imagina que eu deixarei você passar? Quero dizer, você ‘’imagina’’ alguma coisa? Um subconsciente com imaginação, essa é nova para mim.

     – Digamos que eu seja a combinação perfeita.

     – Esqueça, volte para sua caverna, daqui você não passa. – Tiago/criança se virou e saiu em direção à porta mais próxima.

     – Espere! Não foi isso que seu pai dizia? ‘’Volte para o seu quarto, seu debilóide’’, agora olhe para você, igual à ele…

     – Eu não sou igual a ele! – seu rosto havia se contorcido numa expressão que o fazia parecer um doberman enfurecido, ou talvez um pinscher, dependendo de como você encara as coisas.

     A sala começou a se contorcer novamente, mas desta vez não num sorriso. Era qualquer coisa totalmente oposta à um sorriso.

     – Calma, calma, eu sei. Eu sei. – disse Tiago, tentando acalmá-lo – Ele era cruel, você não tem nada de cruel, certo?

     – Eu só estava tentando ajudar! – Tiago/criança começou a chorar repentinamente, e a sala toda se estabilizou – Não tenho culpa de nada do que aconteceu. O vaso estava escorregadio, é óbvio que eu nunca tentaria acertar o pé dele daquele jeito.

     – Vem aqui, quer um abraço? Relaxe, tudo já passou, ok? Você era melhor que ele. Você É melhor que ele. Aqui ele não pode mais te perturbar, você sabe disso. Agora, se você puder me ajudar, eu posso até consertar as coisas…

     – E quando eu não ajudava, apanhava também. Nada fazia sentido, nada – soluçou.

     – Mas você quer ou não que isso acabe? Eu posso te ajudar.

     – Você pode, é? Como?

     – Se eu ajudar o setor de comando a superar esse trauma talvez isso que você sinta vá embora. Não é sua culpa, você só é responsável por memórias, não é justo que sofra assim, não acha?

     – Não sei não… E se algo der errado?

     – Eu me responsabilizo totalmente. Eu digo que te amarrei, te enganei, etc. Afinal você é apenas uma criança, certo? – deu aquele velho sorriso de ‘’vai ficar tudo bem’’, que seria capaz de apaziguar um um leão com uma lança espetada na bunda.

     A criança parou de chorar e disse:

     – Tudo bem, você pode passar. Você realmente acha que consegue?

     – Prometo que… tentarei. – olhou em volta, confuso – Por qual porta eu saio?

     – Todas as portas são saídas. Cada uma corresponde a um ano da infância, depois dos  catorze é com o departamento de puberdade.

     – É só abrir uma porta e estou livre?

     – Não é tão simples assim, mas você vai descobrir. – rodopiou e desapareceu, sem nuvem de fumaça ou efeitos especiais.

     – Qual a dificuldade em explicar as coisas com clareza? – se indignou ele – Bem… Qual porta escolher?

     Após resolver um dos mais difíceis dilemas da vida, ele abriu a porta escolhida e mergulhou num mar de lembranças.

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Sobre Kaue

Apenas mais um mané, que curte escrever nas horas vagas em vez de pegar uma enxada e ir capinar.
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