O Lançar dos Dados – Capítulo 1 – Contratempo

14/06/2012

     Como é de praxe na maioria das curtas histórias que não começam com ”Era uma vez…” e das quais os autores são preguiçosos demais para pensar em outro início, ele acordou. Tudo bem que não foi um acordar digno de um atleta olímpico, mas o desempenho do ato foi louvável. Sem sequer apertar o ”soneca” do despertador, nosso herói saltou de seu abençoado leito para o mundo. Trocou de roupa tão rápido que a manga de seu terno protestou, ameaçando rasgar a qualquer momento, sem misericórdia. Mais uma vez, o caos estava pregando uma peça  em… Bem, vamos  chamá-lo, por ora, de Tiago (talvez seja esse o nome dele, mas não é importante), só que ele ainda não tinha percebido. Fugaz como um suricato que fareja uma larva, ele  atravessa a porta rumo ao elevador. Assim como o mesmo suricato faz uma manobra evasiva ao perceber um grupo de chacais próximo à sua estimada refeição, ele volta para casa buscar a carteira, não sem antes bater o braço na maçaneta da própria porta, o que diz muito sobre ele (e sobre o suricato também). Sem mais delongas: ele não poderia se atrasar.

     Ao chegar no térreo, suando, porque teve que descer correndo sete andares de escadas graças ao elevador quebrado, ele paralisou. Era sua ex-mulher, Marta (mais uma vez, acho que era assim que ela se chamava), sorrindo com seu noivo, um cara extremamente arrogante e desprezível, cujo nome o autor não se dá ao trabalho de dizer, por isso o chamaremos de Grande Babaca. É… Parece um bom nome.

     ”Droga, droga, merda, droga. Tudo bem, não faça contato visual. Mexa no celular. ISSO! Droga, não tenho mais celular. Ah, que ótimo, estão vindo. Olha como ele anda, acha que é o centro das atenções. Tropeça tropeça tropeça, por favor, tropeça seu completo idiota”.

     – Oi! E aí, como vão vocês? Você parece bem, camarada! – uma atuação digna de levar um troféu… bem no meio da testa.

     – São seus olhos, meu amigo – gargalhou Sr. Babaca, dando um tapinha no ombro de Tiago – Andei malhando, sabe?

     – E você está realmente ótima, Marta! – observou Tiago, ignorando completamente seu sucessor – Está realmente radiante. – Infelizmente, para ele, isso era verdade: os cabelos dela se envolviam nos ombros como duas cascatas de chocolate. O corpo esguio estava envolto de um vestido curto, vermelho. Os olhos castanhos estavam examinando-o, nervosos e histéricos, piscando como se alguém tivesse acabado de pingar pimenta em ambos.

     ”Ela não está vestida pra ocasião, está vestida pra uma festa.” pensou ele ‘’Mas uma festa às oito da manhã? Não me parece muito provável. Que seja, pouco me importa pra onde ela vai ou deixa de ir!”

     – Obrigada! Você também está… muito bem – ela parecia um pouco constrangida com a situação.

     – Então, o que fazem aqui?

     – Viemos visitar nosso novo apartamento, e você?

     Ele trocaria de bom grado esse momento por um belo soco no estômago. Mas não se importaria se o estômago não fosse o dele.

     – Eu, eu moro aqui. – se ouviu dizer. Seus olhos se arregalaram – Eu preciso ir! Até outra hora, foi esplêndido ver vocês – mentiu, lembrando de seu compromisso inadiável.

     Pronto! Agora ele não estava mais focado. Toda aquela concentração inicial foi tomar um cafezinho com sua boa vontade. O seu refúgio se foi. Ele quase podia ouvir o prédio desabando e as gargalhadas maléficas de satisfação de sua ex-mulher atrás dele, com ecos dramáticos e uma música de suspense de fundo. Bem, já ficou claro que ele não havia superado a separação. Logo após divórcio, ele alugou aquele apartamento no centro de Lorenzo, e desde então trata o lugar como um santuário da auto piedade. Quero dizer, aquele apartamento era um claro pedido de ajuda. Fontes seguras garantem que, um ano depois de ele ter se mudado para lá, o prédio sofreu uma estranha super infestação de formigas e pulgas, enquanto o apartamento de Tiago permaneceu livre de parasitas. Tudo indica que ocorreu uma migração das pragas que viviam no apartamento dele, que ficaram de saco cheio de viver em tais condições e foram tentar a sorte em novos horizontes. Depois do relato, as fontes se tornaram um pouco menos seguras.

     A verdade é que ele nunca se conformou com o fato de ter sido trocado por um boçal qualquer sem o mínimo de instrução moral e intelectual, o tipo de cara que faria um Estafilococos se sentir culto e limpinho, por isso começou a se isolar na própria cabeça, mas foi aí que o estrago aconteceu. Dias inteiros acabando com o próprio fígado não eram mais o suficiente. A própria realidade se tornara melancólica e vazia, o que fez com que outras coisas tomassem o lugar dela…

     ”Já faz mais de sete anos e eu ainda não esqueci isso… Claro que não, ela que me deixou nesse estado, não posso me esquecer assim. É tudo culpa daquela filha da mãe. E agora ela quer morar no meu prédio, é muita sacanagem pra uma só pessoa!”

     – Você me subestima demais, sabia? – sua ex-mulher estava em cima de um carro estacionado em frente ao mercado. O berro de Tiago assustou um amoroso casal de velhinhos que passava tranquilamente, e fez com que o Sr Velhinho tropeçasse e deixasse cair uma aposta que ele havia feito no fim de semana. Não é relevante, mas isso gerou uma discussão entre os dois idosos que tirou todas as atenções do homem que falava sozinho na calçada.

     – O quê? Ma-Marta?

     – É com ela que eu pareço agora? Ah, que ótimo, muito conveniente! – disse Marta, olhando ao redor do próprio corpo – Como eu ia dizendo, como pode me subestimar a ponto de achar que eu fui criado por uma desilusão amorosa? Tsc tsc, tenha dó.

     – Ah, não! Eu não tinha me livrado de você?

     – Você não pode se livrar de mim, sabe disso. Faço parte de você. Sou muito mais inteligente, claro, e charmoso, o que não é difícil pra ninguém. Até um cone é mais charmoso que você. Enfim, aonde estamos indo?

     – Estamos? Não, não. Você fica aqui! Não vai estragar as coisas dessa vez, com esse seu papo idiota! – dito isso saiu a passos largos, se salvando por pouco de uma bolsa voadora que estava esperançosa em por um fim no papo. – Nunca mais! – decretou.

     Consultou o relógio: ‘’Ótimo, ainda bem que me adiantei’’. Quem aquela assombração pensava que era? Passara seis anos a mercê de uma ilusão, e quando finalmente consegue uns meses de paz, ela volta a atormentá-lo. É fato que esses sete anos de isolamento causaram certos estragos na mente de Tiago. Ele desenvolveu paranoia, deficit de atenção, procrastinação crônica e esquizofrenia (não necessariamente nessa ordem). Mas agora tudo havia passado. Fazia mais de 5 cinco meses que ele não tinha mais essas alucinações, por que elas voltariam justamente agora? Nada nunca fez muito sentido pra ele, então ele decidiu deixar pra lá e continuar a jornada. Fechou os olhos com força, mas abriu-os a tempo de desviar de um poste. Olhou pra trás: ela havia sumido. Deu um sorriso satisfeito e teve a sensação de que o mundo retribuíra o gesto. Tudo iria mudar. Virou a esquina e visualizou o prédio que se encontrava no final da rua: devia ter uns sete andares, era um edifício simples, cinzento, projetado por alguém sem muita imaginação. Na verdade, ele lembrava um daqueles celulares antigos, que ainda tinham botões, só que de cabeça pra baixo. ”Bons tempos.” pensou ele, com uma nostalgia sincera. Seguiu o curso da rua com um ar contente, esquecido de todos os problemas que viviam perseguindo-o. Um pé à frente do outro, com o vento nos cabelos negros e um sorriso de quem acabara de aceitar a ignorância como estilo de vida. Só faltaram os passarinhos cantando e uma música do Bee Gees tocando no fundo.

     Parado em frente à entrada do prédio, ele o contemplou. Era a sua chance de recomeçar. Ele ainda era relativamente jovem, e razoavelmente inteligente, ainda capaz de realizar grandes feitos. Checou seu reflexo no retrovisor de um carro estacionado: seu cabelo estava um pouco mais comprido que o normal, já estava cobrindo suas orelhas, mas ele gostou assim. Seus dentes, ligeiramente tortos (fato que ele disfarçava dizendo algo como:‘’faz parte do meu charme’’), estavam brancos e lustrosos. Seu rosto magro e triangular havia recuperado a cor natural, e estava com um aspecto deveras saudável pra alguém como ele. Fez o ridículo ato de piscar para o espelho e entrou no prédio.

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Sobre Kaue

Apenas mais um mané, que curte escrever nas horas vagas em vez de pegar uma enxada e ir capinar.
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